Era tal a quarta-feira de janeiro a escolhida pra varrer de
si o peso, da mágoa. Quarta-feira de consciência branca. Que se afoguem as
culpas, que escolha teve o moço se não a de se livrar dos vícios. Mas ó,
pequenino, se esqueça de tudo, se encontre com ela, faz de seu amor caridade,
de seu afago, pena. Ela rasteja, mendiga pesares, alimenta-se de seus olhares
de ânsia, duvida de seu próprio cuidado, quer é ser recusada. Precisas de
qualquer outra coisa além de um afeto cego? Infantilidade pura, seu desprezo é
sua fissura. Ela quer seus contos de fada, sua moral estragada, sua estupidez
ensaiada. Cansou dos suplícios, viciou-se nos cortes nas taças quebradas, nos
queijos e vinhos, que mais se quer além de luxúria, sumiço. Não quer um par,
quer todos. Todos os pecados, todos os malditos, todos os fugazes, todas as
tentativas pequenas. Tudo o que for infundado. Se tiver fundamento, corra. Ela
logo lhe toma o orgulho e lhe fere com as unhas cobertas de nada.
Carolina de Jesus
quarta-feira, 8 de abril de 2015
domingo, 1 de fevereiro de 2015
HOJE
Hoje eu acordei com uma paulada na cabeça. Um soluço na garganta: tinha uma mulher presa em algum lugar, muito triste.
Hoje eu tive forças para levantar pra tentar rasgar o grito daquela mulher de um jeito que não ferisse as aves, nem as outras pessoas.
Quando a água caiu sobre mim, hoje, no banho, eu desafoguei os suspiros daquela mulher embalados com o vento que quebrava a minha janela, pra que não se pudesse ouvir.
Mas, hoje, não foi suficiente que os choros do banho levassem pra calma, tive que andar pra mais longe, pra escutar o que aquela mulher me dizia.
Hoje, de dentro de um ônibus, eu ignorei os olhares de gente que via, mas não via comigo aquela mulher.
Viam as pernas, a saia, viam os olhos vermelhos, o cabelo errado, viam-me hesitando mas não enxergavam as forças e os sustos daquela mulher.
Hoje eu saltei de um ônibus tropeçando em pernas e em joelhos, saí de ressalto, corri pelas pedras, alcancei as paredes, me salvei dos reflexos, mas levei comigo aquela mulher.
Hoje as saudações foram frias, as respostas vagas, como em todos os outros dias, como hoje.
Hoje eu preenchi minhas horas e me assustei com meus planos, correspondi às esperas, entrei com ressalvas.
Meus pés ficaram quentes, os olhos estavam poucos, pareci mais pálida, comi umas coisas congeladas, me deitei no sofá.
Desejei falar com amigos, pensei em dormir, deitei para treinar o alívio, mas não descia. Me esqueci daquela mulher.
Soltei comentários rotineiros, me arrisquei em outros sons, assisti a cores, ingeri poucos líquidos e me cobri pra morrer.
Mais tarde, no mesmo dia de hoje, aquela mulher me atestou como louca. Como cega. Como trôpega.
Aquela mulher, hoje, me disse coisas horríveis, me lamentou como rasa, me botou de egoísta.
Hoje, ainda, eu desisti de ser como aquela mulher e fui ser aquela outra. Que murmura, que boqueja. Aquela mulher que está deitada agora. Quieta. Vaga. Triste. Era aquela do sonho. Ela pediu ajuda, ela falou mais baixo. Ela disse "cuidado". Ela rezou "tomara". Ela alertou "espere". Ela me ouviu "errada".
Ela conferiu meu pulso e ela me contou de uma cigana. Ela fez vista grossa e ela saiu de fininho. Ela gracejou meus motivos, ela me ensinou a ser que nem ela. Ela contestou minhas preces e me disse a verdade e eu.
Aquela outra mulher, que gritava, aquela mulher continuou vendo a fumaça que ela própria fazia.
E aquela mulher mais serena, que me mostrava como se quedaba e que morria com elegância, ela me fez ir dormir de novo. Como em todos os dias. Mas foi hoje.
Hoje foi diferente. Hoje duas mulheres morreram e uma me fez feliz.
Hoje eu aprendi com uma mulher a terminar de esquecer as coisas que eu comecei hoje.
Não foi como nas outras noites, eu morri de um jeito diferente. Eu dormi sem sonhar hoje.
Hoje eu tive forças para levantar pra tentar rasgar o grito daquela mulher de um jeito que não ferisse as aves, nem as outras pessoas.
Quando a água caiu sobre mim, hoje, no banho, eu desafoguei os suspiros daquela mulher embalados com o vento que quebrava a minha janela, pra que não se pudesse ouvir.
Mas, hoje, não foi suficiente que os choros do banho levassem pra calma, tive que andar pra mais longe, pra escutar o que aquela mulher me dizia.
Hoje, de dentro de um ônibus, eu ignorei os olhares de gente que via, mas não via comigo aquela mulher.
Viam as pernas, a saia, viam os olhos vermelhos, o cabelo errado, viam-me hesitando mas não enxergavam as forças e os sustos daquela mulher.
Hoje eu saltei de um ônibus tropeçando em pernas e em joelhos, saí de ressalto, corri pelas pedras, alcancei as paredes, me salvei dos reflexos, mas levei comigo aquela mulher.
Hoje as saudações foram frias, as respostas vagas, como em todos os outros dias, como hoje.
Hoje eu preenchi minhas horas e me assustei com meus planos, correspondi às esperas, entrei com ressalvas.
Meus pés ficaram quentes, os olhos estavam poucos, pareci mais pálida, comi umas coisas congeladas, me deitei no sofá.
Desejei falar com amigos, pensei em dormir, deitei para treinar o alívio, mas não descia. Me esqueci daquela mulher.
Soltei comentários rotineiros, me arrisquei em outros sons, assisti a cores, ingeri poucos líquidos e me cobri pra morrer.
Mais tarde, no mesmo dia de hoje, aquela mulher me atestou como louca. Como cega. Como trôpega.
Aquela mulher, hoje, me disse coisas horríveis, me lamentou como rasa, me botou de egoísta.
Hoje, ainda, eu desisti de ser como aquela mulher e fui ser aquela outra. Que murmura, que boqueja. Aquela mulher que está deitada agora. Quieta. Vaga. Triste. Era aquela do sonho. Ela pediu ajuda, ela falou mais baixo. Ela disse "cuidado". Ela rezou "tomara". Ela alertou "espere". Ela me ouviu "errada".
Ela conferiu meu pulso e ela me contou de uma cigana. Ela fez vista grossa e ela saiu de fininho. Ela gracejou meus motivos, ela me ensinou a ser que nem ela. Ela contestou minhas preces e me disse a verdade e eu.
Aquela outra mulher, que gritava, aquela mulher continuou vendo a fumaça que ela própria fazia.
E aquela mulher mais serena, que me mostrava como se quedaba e que morria com elegância, ela me fez ir dormir de novo. Como em todos os dias. Mas foi hoje.
Hoje foi diferente. Hoje duas mulheres morreram e uma me fez feliz.
Hoje eu aprendi com uma mulher a terminar de esquecer as coisas que eu comecei hoje.
Não foi como nas outras noites, eu morri de um jeito diferente. Eu dormi sem sonhar hoje.
domingo, 5 de outubro de 2014
Os Filhos do meu Pássaro
Se eu conseguisse morrer de saudade.
Seria na pilha de tantos cacarecos que eu juntei, de todas as infâncias que tive quando vi crianças brincando nos parques. Com as mães no telefone enquanto desenharam cidades. Com medos no congelador quando acordaram pra apagar a luz.
O meu pássaro que mora na cozinha, ele cantou sua infância outro dia. Era triste. Só me lembro da parte em que acabou.
Os filhos do meu pássaro também vão ser criança por um dia, ou dois. Vão montar uma montanha de cacarecos, vão cantar pra que ninguém ouça.
Mas com eles é diferente. O mundo encantado dos filhos do meu pássaro não é dourado como o das centenas de milhares de meninos que correm no lixo, na areia, no asfalto -- sempre no sol. Eles correm de noite, quando precisam. Mas o tempo todo é dourado.
O mundo dos pássaros não é dourado. É azul.
Eles nunca precisam correr. E nem alcançam o chão.
Os meninos do mundo dourado, não. Eles sonham com os pássaros mas não os perseguem. Não perseguem nada de fato. Tudo os persegue.
E se os pássaros lhes trouxerem cacarecos de outras crianças, eles guardam e tomam pra si. Pra fingir que o mundo dos parques e das mães e dos telefones e dos congeladores e dos interruptores que apagam as luzes também é seu.
Os filhos do meu pássaro ainda não nasceram.
Os meninos que correm no mundo dourado ainda não dormiram.
Eu juntei uma pilha de cacarecos roubados sozinho.
Eu imagino todas as outras crianças do mundo, e meu pássaro me escuta cantando.
Meu pássaro um dia vai correr pro seu mundo azul pra ter seus filhos, e vai me deixar sozinho. E eu vou ficar parado, com o meu monte de coisas de outras crianças e vou morrer de saudade.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Uma Criatura
Uma criatura pequena que morava na grama e vivia do canto dos outros. Se alimentava da luz da noite e embrulhava desejos em folhas, para se fazerem, com o mundo, um só.
Uma noite de estrelas fez a pequena criatura se esquecer de onde pusera os embrulhos. Se separou de seus desejos e se lamentou a cada segundo percorrido. Passou a matar vagalumes para redirecionar a frustração.
Um vagalume, ela pensava, era um arauto de esperança; uma luz que sempre brilha, imperdoável, no instante mais breu de uma consciência. Inconsequente.
Um dia de luz lhe fez vislumbrar os cadáveres luminescentes de vagalumes mortos pela desesperança de uma criatura pequena e frágil. Milhares de outros bichos a seguiram incessantemente pelo rastro luminoso, criado impiedosamente por aquela pequena criatura com raiva.
Uma criatura pequena e raivosa passou a desejar que os milhares de insetos inoportunos que a sufocavam naquele instante descobrissem outro alvo, menos atento. Sem querer, reencontrou os embrulhos de desejos em uma grama aterrada de vagalumes mortos. Bichos vivos continuaram a seguir a criatura e seus embrulhos novos.
Agora os embrulhos brilhavam; tinham restos de vagalumes incrustados em seus sonhos guardados.
Agora a criatura só os perdia quando queria achá-los.
sábado, 23 de novembro de 2013
Camiseta Branca
Ei você.
De camiseta branca e cabelo molhado, você.
O que aconteceu nesses anos todos? Pra onde foi tua coragem construída, teus planos e aí?
Você quer ir embora só pra dizer que foi né.
Você imagina um futuro imaginado onde você é feliz, quando fecha os olhos.
Quando os abre, escapa voluntariamente de conseguir algo mais do que um sorriso de gratidão.
Você cresceu agora, não tem onde se esconder, não tem o quê te caiba.
Tá com medo, foge, não escreve, não mergulha, não sorri nem chora.
Perché non sa voler bene.
Escuta os conselhos de quem te fez escola.
Aqueles todos que já trilharam por você, pra te deixar mais perto da porta de entrada.
Já foi. Começou faz tempo. É você quem decide como você vai contar a sua história. Você não tem vergonha não, de dar pra trás assim... De deixar as imagens que te vem aos ouvidos fugirem assim? Ninguém vai poder ouvi-las mais tarde. Elas morrem mais tarde.
Você não tem vergonha não, de desperdiçar um minuto que seja da sua lucidez, que voa por aí, que tá fazendo falta em qual mundo que seja. Você não tem vergonha?
Tem medo de sentir, de descobrir do que gosta e o que não quer; vai e corre pra fazer tua história enquanto ainda dá tempo de ser uma história de coragem. Dá.
Os mais medrosos são sempre os que fogem. Fugas nunca são mal-interpretadas, tem sempre só um lado a se contar.
Se abre, se entrega pra sentir alguma coisa pra ver se alguma imagem bonita de se contar vem ao teu encontro. Enquanto ainda é tempo.
Você tem muito medo do dia em que tiver consciência da sua falta de consciência. Muito mesmo. Vai dar um desespero, uma vontade louca de pôr pra fora... Mas quando você começar já vai estar terminando. Não vai ter tempo de desencadear o desenvolvimento, quando for ver........... Já passou. Virou branco. E será muito tarde pra começar de novo.
Cada começo de história arde na gente. Mais do que os finais doem. Porque até lá já se renovou a esperança, ao mesmo tempo em que a descrença floresce dizendo que nunca vai se ter história tão bela quanto a última. E que só a última você vai querer abraçar pra sempre. A nova vai nascer morta sem nem ter tido chance de desabrochar. Amadurecer. Crescer. As crias mais novas precisam de mais atenção. Mas dói na gente largar o conforto daquelas velhinhas tão sabias, com marcas tão bem postas. Tão sabidas e sempre despretensiosas. Elas não ligam pra quem não as gosta e sua confiança exala esse encantamento inescrito.
Jamais.
Sempre.
Talvez.

De camiseta branca e cabelo molhado, você.
O que aconteceu nesses anos todos? Pra onde foi tua coragem construída, teus planos e aí?
Você quer ir embora só pra dizer que foi né.
Você imagina um futuro imaginado onde você é feliz, quando fecha os olhos.
Quando os abre, escapa voluntariamente de conseguir algo mais do que um sorriso de gratidão.
Você cresceu agora, não tem onde se esconder, não tem o quê te caiba.
Tá com medo, foge, não escreve, não mergulha, não sorri nem chora.
Perché non sa voler bene.
Escuta os conselhos de quem te fez escola.
Aqueles todos que já trilharam por você, pra te deixar mais perto da porta de entrada.
Já foi. Começou faz tempo. É você quem decide como você vai contar a sua história. Você não tem vergonha não, de dar pra trás assim... De deixar as imagens que te vem aos ouvidos fugirem assim? Ninguém vai poder ouvi-las mais tarde. Elas morrem mais tarde.
Você não tem vergonha não, de desperdiçar um minuto que seja da sua lucidez, que voa por aí, que tá fazendo falta em qual mundo que seja. Você não tem vergonha?
Tem medo de sentir, de descobrir do que gosta e o que não quer; vai e corre pra fazer tua história enquanto ainda dá tempo de ser uma história de coragem. Dá.
Os mais medrosos são sempre os que fogem. Fugas nunca são mal-interpretadas, tem sempre só um lado a se contar.
Se abre, se entrega pra sentir alguma coisa pra ver se alguma imagem bonita de se contar vem ao teu encontro. Enquanto ainda é tempo.
Você tem muito medo do dia em que tiver consciência da sua falta de consciência. Muito mesmo. Vai dar um desespero, uma vontade louca de pôr pra fora... Mas quando você começar já vai estar terminando. Não vai ter tempo de desencadear o desenvolvimento, quando for ver........... Já passou. Virou branco. E será muito tarde pra começar de novo.
Cada começo de história arde na gente. Mais do que os finais doem. Porque até lá já se renovou a esperança, ao mesmo tempo em que a descrença floresce dizendo que nunca vai se ter história tão bela quanto a última. E que só a última você vai querer abraçar pra sempre. A nova vai nascer morta sem nem ter tido chance de desabrochar. Amadurecer. Crescer. As crias mais novas precisam de mais atenção. Mas dói na gente largar o conforto daquelas velhinhas tão sabias, com marcas tão bem postas. Tão sabidas e sempre despretensiosas. Elas não ligam pra quem não as gosta e sua confiança exala esse encantamento inescrito.
Jamais.
Sempre.
Talvez.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Porque sim.
Eu tô com frio... Me esquenta com teu olho gelado? Teu sorriso áspero? Tua palavra cortada. Com o teu não amor.Mas ele já me faz mais bem do que o acalanto do mundo.
Eu posso ficar sozinha.
Já faz tempo. Não preciso.
Eu me acostumo.
Mas eu quero te ter mesmo não te tendo enquanto eu ainda posso.
Daqui a pouco eu vou ali pegar o trem...
Minha passagem tá aqui ó, você não acredita... Vou te mostrar.
Mas agora eu sei. Eu não preciso provar pra você.
Se eu for embora ou não você só fica sabendo bem mais tarde. E se sente pesar, ele não tem tempo de mudar nada. Eu já talhei em pedra do tempo, escrevi em agenda de notas. Meu destino é meu e não pertence a mais ninguém. Vê se se esquece e finge que você se importa com o meu embarque.
Hoje minha vida já é minha mas ainda é sua enquanto eu te olho.
Aí você joga um pouco de zelo ali fora... Eu pego, cuido, embalo. Levo pra passear e, quando eu volto, você já vai ter parado de prestar atenção.
E eu já cansei de cantar.
E teus sussurros falam muito baixo.
E as tuas mãos são quentes.
E as tuas músicas sinceras.
E teu brilho é puro exagero.
E eu sou míope. Mas já chega. Tô cega.
Eu vou ali comprar um doce pra você... Já volto.
[...]
Demorei?
Eu te entrego o doce e você me deixa ser lá longe, tudo bem assim?
Tá aqui. Trato é trato. Pode recolher toda a tua existência aqui de dentro agora? Obrigada. Eu já vou, senão o destino atrasa.
Já fui agora.
O trem tá bem aqui, na minha frente. Tô olhando pra ele mas ele não me olha de volta. Os teus não-olhares eram tão melhores... Mas o tempo já correu. Vou subir as escadas de vapor e entregar meu bilhete e pedir pro maquinista não parar enquanto eu não chegar bem longe. Assim, dá mais trabalho pra voltar.
E a preguiça vence a coragem. É sempre assim que as coisas acontecem... Toda a minha sabedoria de suposição tá sendo engolida pelo medo de andar sozinha, sem existências de terceiros comidas pela boca sem mastigar. Pronto. Ufa, passou, entrei. É só dar o bilhete na mão do cobrador, ele tá no bolso desse meu casaco azul....
(Rasguei o bolso.)
E o que eu faço agora? Sem viagem? Não tem nem mais ninguém aqui dentro pra eu fingir que não falo sozinha. Meu monólogo nunca foi tão triste. Tão sem fim. Sem propósito nenhum. Eu quero voltar, eu quero, quero e pronto.
Por quê?, o cobrador me pergunta.
Porque tem alguém me esperando ali do outro lado, com um doce que é meu. Eu quero de volta agora.
Eu saio correndo porque meu tamanho não faz diferença. Ninguém nota.
Me devolve meu doce. Eu sinto falta dele. Agora eu tenho de novo algo pra dar em troca. E eu engulo sua existência indigesta mais uma vez. Ela é salgada.
Meus olhos ardem, se ajustando com a luz que vem de você. Meu sorriso se regula de volta no padrão normal. Meu bolso vazio ri de ironia.
Eu seguro o doce contra o peito pra ficar comigo. Meu estômago revira. Mas eu tô bem. Não sinto frio.
E por que você voltou?, você me pergunta.
Porque sim, eu te digo. E eu te pego pela mão e vou embora do jeito que eu vim.
Com um guarda-chuva, uma mala de couro e uma boneca de pano -- pendida pelo braço de estopa com um sorriso irreverente e um brilho no olhar que ninguém sabe explicar.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Epifania Moderna
Em
tempos digitais, o rubor do contato inesperado ficou escanteado.
Ficou lá, triste. Escondeu-se numa montoeira de coisas pra
compartilhar, presenças pra confirmar, eventos pra criar. Mensagens
pra visualizar e deixar de ser assim tão escondido.
E
assim nasceram as trocas ferventes de olhar, através de uma tela
luminosa. Sem nem saber a cor dos olhos do amor. Um dia eles vão se
encontrar. E aí, saí de perto que vai dar blecaute.
Porque,
nesse dia, os dois vão se reconhecer artificialmente – as fotos de
perfil não mentiram, ufa. Ele vai convidar ela pra sentar, puxar a
cadeira, tudo certo – ele lera tudo a respeito num blog de
irmandade-masculina apelativo. E ela vai ser gentil, dizer
“obrigadas” e “por favores”, nunca levantar pra ir no
banheiro – regra áurea! – e mastigar de boca fechada, sem nunca
trocar olhares de mais de 3 segundos ou falar sobre antigos
relacionamentos. E sair como uma cigana, sem olhar pra trás – como
as misteriosas damas dos filmes antigos.
Tava tudo certo, tinha
estratégias boladas pra cada possível pergunta. Se ele quisesse
falar sobre família, ela ia contar uma história bonita sobre seu
cachorro ou sua vó, pra ele se encantar com a doçura dela. Se fosse
sobre música, ela tinha estudado toda a discografia dos Rolling
Stones, pra impressionar. Mas talvez ele gostasse de
um papo mais cult, sobre política...
“FelicianoNãoMeRepresentaEDaCopaEuAbroMão”, ela ia vibrar,
satisfeita. Se ele quisesse ela também podia cantar “Pra Não
Dizer Que Não Falei das Flores”, do Geraldo Vandré, pra mostrar
que ela sabia de referências também. Mas só uns trechinhos, pra não
desafinar. E o batom dela era vermelho e o salto era alto e a saia
era curta – mas não muito, pra não assustar. E o garçom chegou e
ela pediu uma água; pegou o cardápio pra olhar (mas ela já chegou
sabendo que ia comer uma salada sem molho, pra não manchar). Ele
pediu uma água também. E disse pra ela escolher, que ele ia comer a
mesma coisa. As saladas chegaram – sem molho. A água, sem gelo. E
eles ficaram comendo em silêncio.
Tomaram
a água toda. Usaram o guardanapo. Colocaram os talheres arrumados em
cima do prato depois que já não tinha mais nada. Ele pagou a conta.
Ele segurou a porta pra ela passar. Ela hesitou na hora de se
despedir – não sabia se fazia a difícil ou cedia, pra ele não
perder o interesse. Eles se beijaram, bem rápido. Ele ligou no dia
seguinte. E eles marcaram de se encontrar de novo. Ele conheceu a
família, falou sobre futebol com o pai dela, elogiou a comida
da sogra. Ela terminou a faculdade, ele comprou um anel. Atualizaram
o status. Viajaram pra terras longínquas e desconhecidas (onde o 3G
funcionasse, claro). Viveram um amor só deles e fizeram das
paisagens bonitas, álbum de fotos. Na volta, compartilharam o álbum
com os amigos. No facebook.
O
amor foi ficando estreito, as declarações, mais escancaradas a cada
check in. Os momentos singulares deles dois passavam cada vez mais
rápido – conseguiram bater o recorde no Angry Birds antes do filme
terminar. E aí, no dia dos namorados, ele pediu ela em casamento.
Com champagne, flores, palmas e versos do Vinícius de Morais no
restaurante. Ela se emocionou, aceitou. No dia do casamento, ele
chegou primeiro, falou com os convidados. Abraçou a
mãeatiaaprimaairmãamadrinhaacunhada. Chorou um pouquinho mas
guardou pras fotos. Ela chegou, atrasada, de branco e de véu.
Ela tirou fotos, fez um ar de blasé, e desceu da limusine com cuidado pra não estragar o sapato alugado. De braço dado com o pai, desfilou até o altar cumprimentando todos os convidados que ela sabia que tinham trazido os melhores presentes. Olhou pra ele. Ele pra ela. E assim os declaro marido e mulher, beija e seca a lágrima e brinda cruzando as taças e ruboriza com as vivas. E ela joga o buquê e a amiga solteira pega e tudo conforme deveria ser.
E eles passam a lua de mel em Veneza ou Paris e seguem todo o programa. E eles voltam pro apartamento de aluguel que tem churrasqueira na varanda e uma vaga na garagem e ela descobre um tumor neuroendócrino. E morre. E deixa ele sentado no meio da sala do apartamento alugado com paredes cor de gelo e um quarto de visitas como escritório, pra viver o clichê sozinho.
Um dia ele vai acordar, ir pro trabalho sem tomar café e, lá pela hora do almoço, quando o chefe não estiver de plantão, tuitar que a vida é imprevisível.
Enquanto essa epifania não chega, ele vai levando sem se arrepender, lendo Clarice Lispector e tendo fé na vida, apesar de tudo.
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