Carolina de Jesus

Carolina de Jesus

terça-feira, 10 de outubro de 2017

amorfa

eu ainda não consigo entender
de quais véus sou feita. obrigada joão pela palavra véus.


Preciso me expressar não tenho forças: preciso-não tenho

Sinto falta de um alguém que eu era que tinha algumas respostas

Agora sou algo mais disforme do que era antes

Eu pedi por não saber, não sou mais

A escrita tem um fim terapêutico, não me trará dinheiro talvez

Imersa nesse velho morno que me ampara em tempos difìceis

Será que eu fiz tudo isso para me restar escrever me escrever: restaurar.

Pontos finais são sempre edifícios? São sempre difíceis?

Me engajar em uma conversa de começo e fim é um pedido indeferido

Me deixar tamborilar pelo teclado é musical -- quando saem palavras

É difícil me confrontar com esse eu que se vê. Que se escreve. Que se tem no espelho.

Deparo-me confio-me. conflito-me.

Já pensou numa paixão tão grande que movimenta a vida toda a escrever





domingo, 1 de outubro de 2017

sem título

o nariz ta aqui, ainda grande.
a pele bem mais branca, as olheiras bem mas fundas do que gostaria
a sobrancelha disforme
o olho direito caído
o bigode, herança portuguesa
todos os pelos
os seios minúsculos
as costelas aparentes
os braços angulosos
a boca tensionada
o coração batendo
respirando
pelos saindo pelo nariz
ouvido coçando
os cheiros ruins
a assimetria
o pensamento
a dor de cabeça
a ansiedade, mais ou menos
os barulhos lá fora
o vinho

as respostas estão sempre escritas
a cura é sempre minha.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O conto de Natal

Chega o tempo em que as frases demandam ser terminadas. Não suportam mais reticências. Indefinição é coisa pra julho, setembro. Agora, não é tempo. Já é tarde em dezembro.
Quando a criança solta das mãos precisas da mãe desatenta para se deslumbrar com um brilho que não lhe pertence, eu percebo. Como alguém disse uma vez que, ou se filma a sopa, ou se come a sopa, eu tenho a realização permanente de que não posso participar de um conto de Natal, se sou eu mesma a contá-lo. De outra maneira não seria conto. Seria ser.
Por isso, enquanto eu me prometo me esquecer da palavra "eu" como narradora-observadora sem interferências internas da órbita que me habita, a criança rouba com os olhos um feitiço forjado para lhe fazer inocente.
Já não é mais criança agora, nem filha, nem parte de um todo. Ela é uma só, de pernas soltas para um infinito limitado que, por vezes, cabe num abraço, num sino, ou num gorro. Todas as estratégias mercantis são rasas agora, perto de um olhar ausente a tudo. Tudo que não seja aquilo que quer enxergar.
E quando renegam sua ingenuidade, ela refuta. Faz força pra continuar de olhos fechados. Ela gosta do que pensa que vê. Mas não vê.
E uma contadora cansada de nadas e poucos e simplesmentes, e uma mãe que ofusca com flashes o espetáculo da ingênua criatura capturada pelo alienado criador, já não pertencem mais ao mesmo mundo de uma criança encantada.
Os passos e riscos calculados inevitavelmente se tropeçam uns nos outros no desejo do reparo da própria consciência corrompida de uma pequena criança, já toda marcada. Queríamos ser todos a mesma criança -- a crise da consciência, o adulto ineficaz, a matriarca bamba... a própria menina queria ser aquela criança. Perdendo a meninice inevitavelmente de encontro com a vida.
Queríamos ser mas, inexoravelmente: não somos.

medo dos caminhos que hesitavam

A morena sempre teve medo dos trilhos do trem. Nunca dos trens. Dos trilhos hesitantes, dos caminhos que curvavam

parênteses sobre 2014

(Estranho.
Passou.
Durou uma vida que coube num instante e talvez quase um ano com pausas longas.
Mas não importa mais.
Só quero viver.
Por favor.)
Inteiramente.
Faltou só uma palavra.
Quando viu-se seca em lágrimas, escrita toda torta, de garganta contida, revirou-se no alento da lâmpada. Desligou, foi dormir. Amanhã eu vivo mais um pouco.