Carolina de Jesus

Carolina de Jesus

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

a maldade dos abacateiros

A grande maldade
Foi ter me feito enamorar por mim mesma
Sem nenhum perigo.
E quando caem abacates no telhado de vinil,
Eu não me lembro em que parte do mundo foi que te esqueci
E se esqueci foi remorso da vida
De outros carrascos
Em outros barrancos
Onde vivem e crescem árvores nuas
Sem pena nem medo sem viaduto nem chá
Sem São Paulo e parentes
sem vida minha antiga
não posso nunca mais te deixar sozinho.

Que você se joga junto
e eu caio de pé
quebro os joelhos
e morro vazia.

Volta.
E deita comigo.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

E agora

E agora Josefina?

A verdade acabou,
o sonhou findou.
a cama molhada, que pena do gozo
O olho espichou
prum outro quarto de pele
Você se esqueceu
ou será que inventou?




quarta-feira, 8 de abril de 2015

Quarta-feira de Culpas

Era tal a quarta-feira de janeiro a escolhida pra varrer de si o peso, da mágoa. Quarta-feira de consciência branca. Que se afoguem as culpas, que escolha teve o moço se não a de se livrar dos vícios. Mas ó, pequenino, se esqueça de tudo, se encontre com ela, faz de seu amor caridade, de seu afago, pena. Ela rasteja, mendiga pesares, alimenta-se de seus olhares de ânsia, duvida de seu próprio cuidado, quer é ser recusada. Precisas de qualquer outra coisa além de um afeto cego? Infantilidade pura, seu desprezo é sua fissura. Ela quer seus contos de fada, sua moral estragada, sua estupidez ensaiada. Cansou dos suplícios, viciou-se nos cortes nas taças quebradas, nos queijos e vinhos, que mais se quer além de luxúria, sumiço. Não quer um par, quer todos. Todos os pecados, todos os malditos, todos os fugazes, todas as tentativas pequenas. Tudo o que for infundado. Se tiver fundamento, corra. Ela logo lhe toma o orgulho e lhe fere com as unhas cobertas de nada.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

HOJE

Hoje eu acordei com uma paulada na cabeça. Um soluço na garganta: tinha uma mulher presa em algum lugar, muito triste.
Hoje eu tive forças para levantar pra tentar rasgar o grito daquela mulher de um jeito que não ferisse as aves, nem as outras pessoas.
Quando a água caiu sobre mim, hoje, no banho, eu desafoguei os suspiros daquela mulher embalados com o vento que quebrava a minha janela, pra que não se pudesse ouvir.
Mas, hoje, não foi suficiente que os choros do banho levassem pra calma, tive que andar pra mais longe, pra escutar o que aquela mulher me dizia.
Hoje, de dentro de um ônibus, eu ignorei os olhares de gente que via, mas não via comigo aquela mulher.
Viam as pernas, a saia, viam os olhos vermelhos, o cabelo errado, viam-me hesitando mas não enxergavam as forças e os sustos daquela mulher.
Hoje eu saltei de um ônibus tropeçando em pernas e em joelhos, saí de ressalto, corri pelas pedras, alcancei as paredes, me salvei dos reflexos, mas levei comigo aquela mulher.
Hoje as saudações foram frias, as respostas vagas, como em todos os outros dias, como hoje.
Hoje eu preenchi minhas horas e me assustei com meus planos, correspondi às esperas, entrei com ressalvas.
Meus pés ficaram quentes, os olhos estavam poucos, pareci mais pálida, comi umas coisas congeladas, me deitei no sofá.
Desejei falar com amigos, pensei em dormir, deitei para treinar o alívio, mas não descia. Me esqueci daquela mulher.
Soltei comentários rotineiros, me arrisquei em outros sons, assisti a cores, ingeri poucos líquidos e me cobri pra morrer.
Mais tarde, no mesmo dia de hoje, aquela mulher me atestou como louca. Como cega. Como trôpega.
Aquela mulher, hoje, me disse coisas horríveis, me lamentou como rasa, me botou de egoísta.
Hoje, ainda, eu desisti de ser como aquela mulher e fui ser aquela outra. Que murmura, que boqueja. Aquela mulher que está deitada agora. Quieta. Vaga. Triste. Era aquela do sonho. Ela pediu ajuda, ela falou mais baixo. Ela disse "cuidado". Ela rezou "tomara". Ela alertou "espere". Ela me ouviu "errada".
Ela conferiu meu pulso e ela me contou de uma cigana. Ela fez vista grossa e ela saiu de fininho. Ela gracejou meus motivos, ela me ensinou a ser que nem ela. Ela contestou minhas preces e me disse a verdade e eu.
Aquela outra mulher, que gritava, aquela mulher continuou vendo a fumaça que ela própria fazia.
E aquela mulher mais serena, que me mostrava como se quedaba e que morria com elegância, ela me fez ir dormir de novo. Como em todos os dias. Mas foi hoje.
Hoje foi diferente. Hoje duas mulheres morreram e uma me fez feliz.
Hoje eu aprendi com uma mulher a terminar de esquecer as coisas que eu comecei hoje.
Não foi como nas outras noites, eu morri de um jeito diferente. Eu dormi sem sonhar hoje.


domingo, 5 de outubro de 2014

Os Filhos do meu Pássaro



Se eu conseguisse morrer de saudade.
Seria na pilha de tantos cacarecos que eu juntei, de todas as infâncias que tive quando vi crianças brincando nos parques. Com as mães no telefone enquanto desenharam cidades. Com medos no congelador quando acordaram pra apagar a luz.
O meu pássaro que mora na cozinha, ele cantou sua infância outro dia. Era triste. Só me lembro da parte em que acabou.
Os filhos do meu pássaro também vão ser criança por um dia, ou dois. Vão montar uma montanha de cacarecos, vão cantar pra que ninguém ouça.
Mas com eles é diferente. O mundo encantado dos filhos do meu pássaro não é dourado como o das centenas de milhares de meninos que correm no lixo, na areia, no asfalto -- sempre no sol. Eles correm de noite,  quando precisam. Mas o tempo todo é dourado.
O mundo dos pássaros não é dourado. É azul.
Eles nunca precisam correr. E nem alcançam o chão.
Os meninos do mundo dourado, não. Eles sonham com os pássaros mas não os perseguem. Não perseguem nada de fato. Tudo os persegue.
E se os pássaros lhes trouxerem cacarecos de outras crianças, eles guardam e tomam pra si. Pra fingir que o mundo dos parques e das mães e dos telefones e dos congeladores e dos interruptores que apagam as luzes também é seu.
Os filhos do meu pássaro ainda não nasceram.
Os meninos que correm no mundo dourado ainda não dormiram.
Eu juntei uma pilha de cacarecos roubados sozinho.
Eu imagino todas as outras crianças do mundo, e meu pássaro me escuta cantando.
Meu pássaro um dia vai correr pro seu mundo azul pra ter seus filhos, e vai me deixar sozinho. E eu vou ficar parado, com o meu monte de coisas de outras crianças e vou morrer de saudade.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Uma Criatura

Uma criatura pequena que morava na grama e vivia do canto dos outros. Se alimentava da luz da noite e embrulhava desejos em folhas, para se fazerem, com o mundo, um só.
Uma noite de estrelas fez a pequena criatura se esquecer de onde pusera os embrulhos. Se separou de seus desejos e se lamentou a cada segundo percorrido. Passou a matar vagalumes para redirecionar a frustração.
Um vagalume, ela pensava, era um arauto de esperança; uma luz que sempre brilha, imperdoável, no instante mais breu de uma consciência. Inconsequente.
Um dia de luz lhe fez vislumbrar os cadáveres luminescentes de vagalumes mortos pela desesperança de uma criatura pequena e frágil. Milhares de outros bichos a seguiram incessantemente pelo rastro luminoso, criado impiedosamente por aquela pequena criatura com raiva.
Uma criatura pequena e raivosa passou a desejar que os milhares de insetos inoportunos que a sufocavam naquele instante descobrissem outro alvo, menos atento. Sem querer, reencontrou os embrulhos de desejos em uma grama aterrada de vagalumes mortos. Bichos vivos continuaram a seguir a criatura e seus embrulhos novos.

Agora os embrulhos brilhavam; tinham restos de vagalumes incrustados em seus sonhos guardados.
Agora a criatura só os perdia quando queria achá-los.























sábado, 23 de novembro de 2013

Camiseta Branca

Ei você.
De camiseta branca e cabelo molhado, você.
O que aconteceu nesses anos todos? Pra onde foi tua coragem construída, teus planos e aí?
Você quer ir embora só pra dizer que foi né.
Você imagina um futuro imaginado onde você é feliz, quando fecha os olhos.
Quando os abre, escapa voluntariamente de conseguir algo mais do que um sorriso de gratidão.
Você cresceu agora, não tem onde se esconder, não tem o quê te caiba.
Tá com medo, foge, não escreve, não mergulha, não sorri nem chora.
Perché non sa voler bene.
Escuta os conselhos de quem te fez escola.
Aqueles todos que já trilharam por você, pra te deixar mais perto da porta de entrada.
Já foi. Começou faz tempo. É você quem decide como você vai contar a sua história. Você não tem vergonha não, de dar pra trás assim... De deixar as imagens que te vem aos ouvidos fugirem assim? Ninguém vai poder ouvi-las mais tarde. Elas morrem mais tarde.
Você não tem vergonha não, de desperdiçar um minuto que seja da sua lucidez, que voa por aí, que tá fazendo falta em qual mundo que seja. Você não tem vergonha?
Tem medo de sentir, de descobrir do que gosta e o que não quer; vai e corre pra fazer tua história enquanto ainda dá tempo de ser uma história de coragem. Dá.
Os mais medrosos são sempre os que fogem. Fugas nunca são mal-interpretadas, tem sempre só um lado a se contar.
Se abre, se entrega pra sentir alguma coisa pra ver se alguma imagem bonita de se contar vem ao teu encontro. Enquanto ainda é tempo.
Você tem muito medo do dia em que tiver consciência da sua falta de consciência. Muito mesmo. Vai dar um desespero, uma vontade louca de pôr pra fora... Mas quando você começar já vai estar terminando. Não vai ter tempo de desencadear o desenvolvimento, quando for ver........... Já passou. Virou branco. E será muito tarde pra começar de novo.
Cada começo de história arde na gente. Mais do que os finais doem. Porque até lá já se renovou a esperança, ao mesmo tempo em que a descrença floresce dizendo que nunca vai se ter história tão bela quanto a última. E que só a última você vai querer abraçar pra sempre. A nova vai nascer morta sem nem ter tido chance de desabrochar. Amadurecer. Crescer. As crias mais novas precisam de mais atenção. Mas dói na gente largar o conforto daquelas velhinhas tão sabias, com marcas tão bem postas. Tão sabidas e sempre despretensiosas. Elas não ligam pra quem não as gosta e sua confiança exala esse encantamento inescrito.
Jamais.
Sempre.
Talvez.