Carolina de Jesus

Carolina de Jesus

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A fome dos homens

enquanto você não chegar
eu prometo que vou devolver
tudo aquilo que eu nunca dei
a todos aqueles que passavam fome
enquanto eu andava pela rua
cega
de mim.
e eu vou dar
muito mais do que nunca me deram
na busca por uma justiça infalível
que retorna à terra o que é dos homens
que rouba aos homens para
dar-lhes de novo
a mesma música
só que com outros ouvidos.
aquilo que você pegou de mim
não era meu
mas
dos que passavam fome
enquanto eu muito comia
e não resistia à tentação dos doces
barulhos dos homens.
que não querem devolver
o que não lhes pertence
mas que
ainda sim
revindicam.
a música
dos homens
é a barriga vazia de outrem.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

poema sobre pronomes

a gente era novo demais pra se amar. a gente era novo demais pra se amar?
a gente era óbvio demais pra se amar. a gente era noivo demais pra se amar.
a gente era nóbvio demais. a gente era demais. a gente era a gente demais pra se amar? a gente era a gente pra se amar? a gente era o quê?
a gente era ou foi.
éramos agentes demais pra nos amarmos.
éramos novos agentes pra se amar.
a gente amava ser a gente pra se amar.
a gente amava o erro do outro demais pra se amar. a gente se amava demais pra se amar.
a gente amava ser novo pra amar.

cadê eu?

Mãe

a inteireza é minha,
não é tua.

o desejo de ser toda minha é meu, não é teu.

AI DE MIM, ela me disse.

o ódio roendo o peito, bem aos poucos. É pior assim, ela continua.
Do que morrer de amor todos os dias.

A mãe é minha, não é tua. Eu avisei.
E até hoje eu luto com o meu próprio colo pra farejar quem foi que sorveu por último o leite que ela não me ofereceu.

Dói, ser mãe de mim mesma.
Dói, abrir o peito e parir a mim.

Eu choro e o consolo vem de fora.
Do vento que encosta na face e rouba de volta o que nunca foi meu.

Dor, expressão passageira. De uma permanência inconstante que nunca desvaneceu.

Fazia tempo que eu não morava nos versos, ela termina.

A última vez foi naquele outro roubo que nunca esqueceu.

menos

Eu estou apaixonada por todos os homens que já me amaram e também por aqueles que não me amaram.

Eu me apaixono pela minha capacidade de me apaixonar. Eu me apaixono pelo sofrimento amoroso dos outros, e pelo meu próprio. E assim, continuo.

Eu queria entender, não sei se me tenho. Acho que quanto mais me tenho, menos me tenho.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

eu queria escrever sobre você pra sempre.





sobre todos os contornos que você desenhou em mim, durante todo esse tempo.
Ei, se você ainda tá aí me ouvindo

O amor ainda transborda e o corpo ainda me prende na insegurança das restrições.

Eu ainda te amo.

Eu lembro todos os dias com uma minúcia de detalhes aterrorizante quais eram as paisagens e os perfumes das nossas primeiras, últimas e intermediárias vezes.

Eu ainda amo o som da sua voz, o seu abraço que me sufoca mas me sustenta.

Eu ainda odeio as mesmas coisas que você já sabe.

Eu ainda me sinto perdida que nem sempre.

Eu ainda vivo mais na cabeça do que no corpo.

Eu ainda sinto a sua falta.

Eu ainda choro quando eu lembro que você não veio.

Eu ainda hesito quando vejo ou escuto alguma coisa que você gosta.

Eu ainda tenho medo das janelas altas porque não confio em mim.

Eu ainda lembro de tudo que você me fez e de tudo que eu te fiz e das palavras feias e das bonitas, a memória fica cada vez mais apurada.

Eu ainda tenho medo dos erros que eu nem cometi.

Eu ainda planejo coisas que eu nem vou viver, por excesso de planejamento.

Eu ainda tinha até algumas horas atrás o primeiro presente que você me deu, que era um Pato Donald que eu joguei fora porque achei que era muito sadismo guardar esse tipo de coisa.

Eu ainda tenho medo de voos longos de avião.

Eu agora quero aprender uma nova língua.

Eu estou tentando ainda sistematizar pensamentos que se embaralham porque eu sou a rainha das certezas e estou tentando ainda deixar de ser.

Eu ainda não consigo decidir.

O sentimento ainda é mais forte do que a razão.

Eu ainda amo você mas eu não sei o que faço com isso.

Eu engasgo pra dizer o seu nome em voz alta e eu tusso quando alguém pergunta de você.

A crise de bronquite que eu nunca soube que tinha já dura mais de um mês.

Eu ainda amo você.


http://totodenadie.blogspot.com.br/2014/04/marguerite-duras-o-homen-atlantico.html

terça-feira, 10 de outubro de 2017

amorfa

eu ainda não consigo entender
de quais véus sou feita. obrigada joão pela palavra véus.


Preciso me expressar não tenho forças: preciso-não tenho

Sinto falta de um alguém que eu era que tinha algumas respostas

Agora sou algo mais disforme do que era antes

Eu pedi por não saber, não sou mais

A escrita tem um fim terapêutico, não me trará dinheiro talvez

Imersa nesse velho morno que me ampara em tempos difìceis

Será que eu fiz tudo isso para me restar escrever me escrever: restaurar.

Pontos finais são sempre edifícios? São sempre difíceis?

Me engajar em uma conversa de começo e fim é um pedido indeferido

Me deixar tamborilar pelo teclado é musical -- quando saem palavras

É difícil me confrontar com esse eu que se vê. Que se escreve. Que se tem no espelho.

Deparo-me confio-me. conflito-me.

Já pensou numa paixão tão grande que movimenta a vida toda a escrever





domingo, 1 de outubro de 2017

sem título

o nariz ta aqui, ainda grande.
a pele bem mais branca, as olheiras bem mas fundas do que gostaria
a sobrancelha disforme
o olho direito caído
o bigode, herança portuguesa
todos os pelos
os seios minúsculos
as costelas aparentes
os braços angulosos
a boca tensionada
o coração batendo
respirando
pelos saindo pelo nariz
ouvido coçando
os cheiros ruins
a assimetria
o pensamento
a dor de cabeça
a ansiedade, mais ou menos
os barulhos lá fora
o vinho

as respostas estão sempre escritas
a cura é sempre minha.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O conto de Natal

Chega o tempo em que as frases demandam ser terminadas. Não suportam mais reticências. Indefinição é coisa pra julho, setembro. Agora, não é tempo. Já é tarde em dezembro.
Quando a criança solta das mãos precisas da mãe desatenta para se deslumbrar com um brilho que não lhe pertence, eu percebo. Como alguém disse uma vez que, ou se filma a sopa, ou se come a sopa, eu tenho a realização permanente de que não posso participar de um conto de Natal, se sou eu mesma a contá-lo. De outra maneira não seria conto. Seria ser.
Por isso, enquanto eu me prometo me esquecer da palavra "eu" como narradora-observadora sem interferências internas da órbita que me habita, a criança rouba com os olhos um feitiço forjado para lhe fazer inocente.
Já não é mais criança agora, nem filha, nem parte de um todo. Ela é uma só, de pernas soltas para um infinito limitado que, por vezes, cabe num abraço, num sino, ou num gorro. Todas as estratégias mercantis são rasas agora, perto de um olhar ausente a tudo. Tudo que não seja aquilo que quer enxergar.
E quando renegam sua ingenuidade, ela refuta. Faz força pra continuar de olhos fechados. Ela gosta do que pensa que vê. Mas não vê.
E uma contadora cansada de nadas e poucos e simplesmentes, e uma mãe que ofusca com flashes o espetáculo da ingênua criatura capturada pelo alienado criador, já não pertencem mais ao mesmo mundo de uma criança encantada.
Os passos e riscos calculados inevitavelmente se tropeçam uns nos outros no desejo do reparo da própria consciência corrompida de uma pequena criança, já toda marcada. Queríamos ser todos a mesma criança -- a crise da consciência, o adulto ineficaz, a matriarca bamba... a própria menina queria ser aquela criança. Perdendo a meninice inevitavelmente de encontro com a vida.
Queríamos ser mas, inexoravelmente: não somos.

medo dos caminhos que hesitavam

A morena sempre teve medo dos trilhos do trem. Nunca dos trens. Dos trilhos hesitantes, dos caminhos que curvavam

parênteses sobre 2014

(Estranho.
Passou.
Durou uma vida que coube num instante e talvez quase um ano com pausas longas.
Mas não importa mais.
Só quero viver.
Por favor.)
Inteiramente.
Faltou só uma palavra.
Quando viu-se seca em lágrimas, escrita toda torta, de garganta contida, revirou-se no alento da lâmpada. Desligou, foi dormir. Amanhã eu vivo mais um pouco.

Respira

Fala pra Carolina que eu amo ela.
Que ela tem um cabelo bonito e uma esperança no olhar e nenhuma Guatemala vai trazer isso de volta. Só ela. Fala pra ela de todos os homens que nunca lhe Amaram. E de todas as mulheres que Amaram. E de todos os amigos que quiseram construir coisas, que lhe abraçaram quando ela chorou. De todos os shows que foi sozinha e os lugares que viu com os próprios olhos. e que podem me tirar de tudo e eu continuo aqui, crente que sou a menina que escrevia no chão da vó, que é boa com as crianças e que escreve pra desaprender o nó da garganta, que chora e escreve e vive. E desenha pra olhar as coisas com mais silêncio. Graças a deus. Que faz yoga e melhora a postura resolve as questões da hereditariedade. Que vai pra praia só pra Meditar. Que acredita na força e na adultez, na garra do irmão. Que acredita na força na adultez e na determinação da irmã. Que olha pra mãe com carinho, com zelo. Que olha pro pai com respeito e saudade. Que olha pra tia com felicidade pela felicidade dela. Que olha pra outra com admiração. Que não olha pra ninguém com dor no peito. Porque quando tem dor no peito não importa o resultado: só escreve e respira. Lê todas as coisas e gosta de olhar gravuras. Cuja melhor parte da vida é o agora. Mas que lembra com ternura o passado e o abraça, que não adoece de afetos porque eles são todos: eu. Tudo sou. Cada ausência cada nó sem fio cada falta de interpretação cada mal entendido cada vácuo e vazio no universo sou eu. Eu sou cada um desses silêncios que me botaram no mundo pra ver e não ouvir e não falar e não controlar e não sentir: sentir o nada todo junto. Ao mesmo tempo em cada palavra incerteza e montanha que eu vou subir. E tá tudo bem agora. Antes e depois do soluçar tem aquele minutinho de:
(Silêncio).

sábado, 30 de abril de 2016

graças a deus

Talvez eu só escreva mesmo em ausências.
Sentindo-me sólida, vasta de solitude.
Talvez deva-me mandar embora até a Patagônia onde os cigarros são frescos -- ei, tens algum cigarro?
Talvez eu deixe o embarrado barranco de homens e a pútrida carne da minha virilha que não se dá mais ao gosto e que desgosta de tudo quanto é cor. Prefiro os marrons mas na falta concentro-me em vermelhos.
Repúdio às Poéticas aos conventos e às castas. De todos os gêneros, depredo, vejo-me a s s e x u a d a.
O último pinguinho de gozo foi de medo naquele escuro às avessas, contente por ser assaltada.
Mecanicamente não nego o sistema -- baseado em contato e atrito --, mas subjetivamente eu recusaria o calor pelo hermético vazio que se instala -- sinto falta da melancolia.

Do vazio.


Aquele cafezinho como proeza da bondade me deu arrepios, sonhei que era assediada, arrastada, punida -- acordei liquefeita, reduzida a suspiros. Queria perigo eu tenho a decência.

oláaaaaaa? Me solte, alvoroço, fantasia, ódio, ódio, ódio, afago, angústia, tesão.
Silêncio e tédio -- me satisfaço facilmente, adio a trágica solidão para meados de agosto, graças a deus.

Você só me fala de silêncio.
É triste.
Me fala dos reflexos de outras pessoas em você.
É pena.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Cemitério de Elefantes

Perdoa-te os teus impulsos, os meus soluços. As urgências tão ingênuas. Perdoa os meus rabiscos, frente aos teus traços vistosos. Faz outro campo verde calmo e cria aqueles ventos balançando as calças claras de um juiz de pequenas causas. Se lembra quando você andava, amontoando os teus moinhos nos teus passos tropeçantes e se engajava em minhas pressas; como se meus minutos percorridos fossem os mais importantes. Amansa os seus cabelos em ondas gris como se a loucura das tuas falas fosse mero efeito cômico. Rememora todos os esforços dos amores que conquistara. Respira. Descansa. E ri de si como ri dos tempos áureos de muitos irmãos, antes de adentrar o cemitério dos elefantes, do qual tivera tanto medo. Escuta seu vazio e não te afugentes quando o sentido se perder no claro. Ria. Passeie pelas covas e dê teus passos longos, com essas pernas que não couberam neste prado pequenino de gente igual aos seus parentes. Mira a estrada de ferro e ria. E seus risos me ecoam por todo campo verde. Que agora se emoldura na sala de visitas do mundo dos seus tijolos e serviços. Que eu ainda não sei nada.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Quis quimera breve logo o mar se tornou cheio

Na casa de sete bruxas venusianas, de signos de ar, aplacou a convivência mundana, para que levitasse sobre o sofrimento eterno e terreno.
Lhe ajudaram pouco ou quase, fizeram com que sofresse um pouco menos e com que entendesse quase nada.
Ao final dos sete dias, cada um com uma bruxa, esperou que a solidão lhe invadisse a calma da ausência.
Foi arrastada à sua própria cama e condenada a viver com as sete bruxas dentro de si no mundo de terra em que brincavam as outras propostas de gente.
"Para que fosse mais leve" sussurrava o coro das sete bruxas talvez amigas.
Tornou-se louca.
Lesada pelas concomitantes discussões das sete mulheres que habitavam-na como pragas apodrecendo uma leguminosa, teve sua licença cassada e não pôde mais advogar a favor de coisa nenhuma.
Emitiu somente declarações nunca justificadas com sete palavras durante sete longos meses até empalidecer com a aparência.
Passaram-se sete anos e foi-se o corpo das sete velhas bruxas de dentro da flácida carne, de alma mais pesada e tímpanos tortuosos, exagerados de dialética, da errática e falecida mulher.

Retornaram à velha morada, abandonado o corpo de moça fraca.

E esperaram a próxima hóspede, que as carregaria entre as cavidades oculares pela próxima eternidade. Para que pudessem emudecer suas cabeças rangentes de bruxas cegas e fazer falar a mente de outra mulher. E fariam passeios intermináveis até que tivessem visto tudo, pela vista roubada de todos os olhos. Um dia entregariam-se inevitavelmente à morte execrável de sua cegueira até que a finitude da escuridão as emudecesse em loucura.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Queimam a Santa no Fogo Profano

Frio, gélido e cálido
Eres tão paciente
Possuis o rosto lupino
A pele tão morna
E desperto-me primaveril
Na bruma rodeada
De alvos jasmins
Pés de maçã, bétulas claras
E outras coisas calorosas.
Que me tornam mais
Pura aos olhos ternos
De minha mãe.
E queimam minha face,
A sua face.
Os nossos troncos
A minha relva, sacra
Na fogueira dos bons samaritanos
Aqueles que a ninguém feriram.
Silêncio em brasa.
A flora, em chama.
A mãe natureza permanece adormecida.
Soterrada por milhões de passos,
De colo empobrecido
Por seus choros ácidos
E suas gargantas, secas.
Descansa, nossa mãe de todos.
Fazes que celebremos em outra hora.
Esperamos o interrompido festim, calados.
Até que se consume o fogo
Na alma dos condenados.