Carolina de Jesus

Carolina de Jesus

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Síndrome de Poliana - parte 2 (FINAL)

E agora, Poliana?

Pra onde foi  toda a tua poesia, teu ritmo, tua risada? Acabou?

Cansou né. É difícil. Eu já tentei ficar no teu lugar. Não deu certo. Não sou forte o bastante. No primeiro revirar de olhos eu desisti. Achei melhor ficar no meu canto mesmo. Dói ser diferente. Ninguém quer viver de dor. É por isso que a arte não dá lucro né. Arte é dor. Tua arte acabou agora, você tá tão cinza... Deitada assim nesse leito de hospital. Tão pálida, tão fria, tão distante de tudo. Nem dor você sente mais. Era bom se sentisse. Tá tão anestesiada que nada mais te prende à vida. Tô com pena de você, menina. Mas a pena é ruim, nunca é bom sentir pena.
Mas você tá com pena. Tá com pena de tudo que você viu, tudo que você ouviu. Todo o mundo que você enxergou e não contou pra ninguém. Engoliu e agora não vai mais pôr pra fora. Tudo isso vai morrer com você. E agora quando você olha pro lado e não vê sorrisos, as flores são murchas, você desiste. Tá cansada, os cartões não te bastam, as melhoras nunca foram sinceras, os desejos são gritados, são de mentira. Quando tudo o que você queria era um segredo sussurrado. Sem aparência, sem motivação social, só desejo mesmo. Podia ser de qualquer um. Só queria que alguém te quisesse bem. Com vida, não dopada. E quando você se levanta pra ir no banheiro, você fala pra enfermeira que quer ir sozinha. Ela vai te obedecer, você é louca, ela tem medo. Ela obedece. Você levanta com pressa na esperança de sentir alguma fisgada, uma cãibra que fosse, só pra ouvir teu corpo te dizendo que você ainda tava ali. Mas nada. Nenhuma dorzinha. Continua e vai até o banheiro. Abre a porta, olha em volta. Ninguém tá olhando, não se preocupa. Fecha a porta. Tranca. Ai droga, a porta não tranca. Tudo bem, não vai fazer diferença. Poliana, aproveita agora que você não se importa. Aproveita que você não tem mais vida pra ser contrariada. Aproveita, que não tem mais nada pra aproveitar. E tá acabando. Já já a dor passa. A dor pela ausência da dor. Você foi forte, já deu, agora acabou a brincadeira. Chega de brincar de criança. Ninguém gostou. Ninguém entendeu. Não era brincadeira. Ah, nem adianta mais tentar explicar, esquece... Só se camufla da tinta escura que você já conhece, fica invisível, você já aprendeu como. E não fecha os olhos. Que você vai voltar a enxergar. Olha aí pela janela do banheiro, ta aí teu amigo. O pôr do sol. Lembra? Aquele que sempre te intrigava. Você achou que não sentia mais nada, mas tá sentindo raiva agora. A culpa é do pôr do sol mesmo. Ele é lindo, eu já sei. Mas é uma beleza que acaba. Vai se esgotando e vai ficando cada vez mais bela. E quando você acha que a alegria vai durar pra sempre, ele se apaga. Some, se esconde, ele cansa também. Todo dia ele cansa.
E você também tem o direito de morrer todo dia. Faz que nem o sol.
Sobe no parapeito da janela. E olha. E sorria. E sonha. E só.
Sentiu agora o calor do sol te abandonar? Tá sentindo a escuridão que te invade junto com a tristeza da noite? O sol foi embora agora, Poliana. Não, olha, deixa ele ir, é melhor assim. Você espera, ele volta amanhã. Poliana, chora. Mas não chora demais. Eles vão te ouvir. A enfermeira vem vindo aí, é melhor você voltar pra cama, volta pro teu leito gelado, que é mais quente que a noite. Esquece do sol agora, ele já morreu por hoje.
Tem alguém batendo na porta do banheiro. Acho que agora é melhor parar. Limpa esse choro. Poliana, você já tá viva agora. Não morre junto com o sol, por favor. A porta tá abrindo. Poliana, não pula. Por favor. Você não vai achar o sol assim. A culpa não é dele. A culpa é de todo o resto. Não vai atrás de uma culpa que você não consegue alcançar. Não. Vem cá, segura a minha mão. Vem. Não, a enfermeira tá gritando, se você der mais um passo ela chama a segurança. Ela vai te segurar, você não vai conseguir fugir. E vai ficar presa pra sempre. Vão te amarrar com cordas bem mais do que físicas. Vem, que mesmo assim, nada é pra sempre. Cadê teu sorriso agora? Lembra quando nada te feria? Não vai. Não fecha os olhos não. Não sorri mais agora. Não tem graça.


Cadê você, Poliana?
Cadê teu ritmo? Teu sorriso? A poesia ainda tá aqui, porque ela não morre. Mas todo o resto foi pra terra junto com você.
Você foi atrás do sol. Mas ele voltou no dia seguinte. Eu achei que eu fosse te ver chegando com ele. Mas você foi embora de uma vez por todas. É uma pena.


Foto de Tom Barratt






POLIANA

(1913 - 27 de maio de 2013)

domingo, 28 de abril de 2013

Síndrome de Poliana - parte 1



Era certo que Poliana não se encaixava no mundo ao qual pertencia. Era tão certo, que sua existência fora engolida, impiedosamente, pela -- e por causa da -- terra que a originou. E assim, imersa na terra, permeada pelas paredes de madeira grossa que a separavam do mundo que mal deixara, esqueceu-se de sua vida. Não fora culpa dela. Fora o mundo que não compreendera Poliana. E ela se deixou esquecer, ao tempo em que as flores eram sepultadas junto com seu corpo agora frio, agora calmo. Nem as lágrimas a satisfariam, se ainda pudesse estar presente para assisti-las. As lágrimas superficiais só a fariam lamentar ainda mais a sua incompreensão fatídica. Mas todos somos incompreendidos.
No mundo que não a ouvia, Poliana passava quase que despercebida. Quase. Porque sua vitalidade entusiasmada ainda servia para irritar os céticos de plantão. Para ela, as flores murchas serviam para exaltar as recém-desabrochadas, o cinza dos céus nublados era só um tom de azul opaco, as fortes chuvas faziam as secas serem benquistas e vice-versa. A cada doença, a cada nota ruim, a cada desapontamento, havia uma razão de ser, algo maior e melhor para acontecer. E na morte ela via um certo consolo, pensando que sobraria comida para quem viesse a nascer e que a saudade só encontra razão na falta.
Mas o mundo não entendia Poliana. Queria contaminar com sua palidez a alma tão pura da menina criança que não enxergava razão para chorar de dor.
Poliana gostava de botar a culpa em coisas, ao invés de em pessoas. A culpa não era das pessoas por seu pessimismo gelado, era o sol que não ficava por tempo suficiente. As estrelas eram culpadas quando alguém chorava de amor numa noite vazia. A culpa do sol poente era a que mais a inquietava.
O mundo contemporâneo diagnosticou a pureza da menina como um distúrbio. Tinham pena dela. Falava-se aos cochichos quando ela parava no meio da rua para observar o céu. Ela nunca chorava. Só ouvia. Ouvia os ruídos externos aos seus olhos plácidos.
Se tinha um efeito que lhe faltasse, era o da sinceridade. Poliana mentia. E se deixava ouvir as mentiras que os outros contavam. Mas é que a mentira era importante na composição do sonho no qual a menina vivia enterrada. Ela não mentia por maldade. Nem por arrogância ou narcisismo. Mas por proteção. Para se proteger. E também para proteger o mundo das verdades que conhecia.
 Mas o mundo era egoísta, não queria proteger Poliana.
E quando deixaram-na sozinha por uma única vez, ela estranhou. Depois, chorou. Não sentia familiaridade com a solidão. Não gostava do vazio que a forçava a pensar em si. Gostava de achar soluções para os outros com seus problemas respectivos, sempre urgentes. Ela não sentia urgência em si. Ela não se enxergava, essa era a verdade. Mas a cegueira parcial é perigosa.
Quando imersa na névoa de seu caos particular, ela não aguentou. Sucumbiu à loucura do mundo. E aquele pingo de ceticismo que morava em seu corpo, que era sempre abrandado com tanto esforço, viu sua brecha e a dominou por inteiro, corpo e ser.
"Deixa de ser boba menina", "Pare de sonhar, acorda que o mundo é esse!", "O mundo é feio", "As pessoas mentem", "Acorda", "Não tem nada de especial lá fora", "Acorda, Poliana", "Tenho pena de você...", "A sua filha tem um distúrbio...", "Por que você tá sempre sorrindo?", "Para de falar besteira...", "Cansei de ouvir essas bobagens!", "...ela não sabe discernir realidade de fantasia", "Abre os olhos e enfrenta a verdade, menina!", "Poliana, para de sonhar acordada, isso não presta pra nada!", "Larga desse caderno vai, vai fazer alguma coisa útil...", "Tá desenhando ainda??", "Eu... vou te passar alguns remédios... só pra fazer ela dormir melhor, nada pesado...", "Isso mesmo, agora já acordou? Vem trabalhar então!", "Poliana, tá tomando seus remédios?", "Acho que agora ela toma jeito...", "Não sei se ela tem jeito...", "Agora sim, sem aquele sorriso bobo o tempo todo, até parece gente!", "Poliana tem uma síndrome sabe... mas ela é medicada, tudo certo, ela obedece o que o senhor pedir, pode deixar...", "Não é nada contagioso não...", "Melhor tomar cuidado com essa menina, parece que não bate muito bem... toma tarja preta e tudo", "Tem certeza que ela dá conta do serviço? Não me parece muito sã...", "Sua filha está respondendo bem ao tratamento... Mas vamos aumentar a dose, só pra garantir", "Ela tá sempre dormindo, que que foi que tá com essa cara agora?", "Não podia ser normal não?", "Os exames são animadores, conseguimos dar um choque de realidade na menina! Muito bem Poliana", "Essa menina é meio estranha, não?", "Mas tá melhorando, era pior antes...", "Poliana, você tá bem?", "Poliana? Para de brincadeira hein...", "Ah ela tá ótima sim", "Nunca mais foi a mesma", "Os remédios funcionaram...", "Poliana, fala comigo. Poliana??", "Doutora, o que aconteceu com ela?", "Acho que ela só tá com sono, não se preocupem...", "Porque você não acorda menina?! Que coisa, me responde!", "A pressão dela caiu... mas ela vai ficar bem...", "Poliana? Me escuta?!", "Acorda menina! Acorda!", "Doutora, pelo amor de deus... minha filha...", "Poliana! Chama a emergência, rápido", "POLIANA?", "Acordou?"...

Não acordou.

Foi só uma semana mais tarde, quando passaram os efeitos da sedação, que ela voltou a respirar sozinha. Abriu os olhos. Mas já era tarde...


(Fim da parte 1).

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Sujeira

(Mendigo Brigando com Cachorros, de José Lutzenberger)

"Sabe, a vida é engraçada... Eu nunca tive amigos, minha mãe me largou -- meu pai já tinha largado ela -- e ninguém nunca quis me procurar. Agora eu tenho você. E escuta aqui, eu trocaria todas as pessoas que eu já conheci por você" -- ele andava falando e gesticulando, não se importando com os olhares tortos dos passantes de moral insuportável. "O que é que esse louco está falando sozinho de novo?". "Ai, eu não aguento mais! Quantas vezes eu já não pedi pra ele não voltar a aparecer em frente à minha loja... Ele assusta todos os clientes! Eu já tive que chamar a polícia semana passada...". "A polícia? O que aconteceu?!". "Ah, ele ficava incomodando os clientes. Começou a dançar sozinho na praça -- sem nenhuma música, onde já se viu!". "Que absurdo! Você fez muito bem, eu teria feito a mesma coisa". Enquanto os comerciantes se preocupavam com suas vendas, as bocas salivando com os gosto dos R$s que eles cobiçavam, o homem louco seguia sem nenhuma preocupação, a não ser manter a conversa com o seu novo amigo.
Os pedestres cujo rosto não importava não cogitavam prestar atenção no morador de rua; se concentravam em "desviar o olhar" -- "Não olhe filha, senão ele vai achar que você quer conversa com ele... Já não viu no jornal quantos morrem desta forma?". Mas bastava uma fração de segundo do olhar de uma pessoa mais atenta ou mais honesta para se perceber que o homem louco não falava sozinho -- se louco, que fosse por outros motivos...
Seu amigo, um canídeo humilde com apenas três patas funcionais e menos dentes do que gostaria, insistia em acompanhar o mendigo louco. Ele era um bom amigo -- lhe fazia companhia, não o chutava ou o espantava com ojeriza, deixava-o se acomodar no seu papelão nas noites mais frias, dividia tudo o que julgava como "comida" em partes iguais... Foi mais gentil do que qualquer humano jamais fora.
Numa de suas andanças, o mendigo decidira entrar em um mercado para negociar um pacote de bolacha -- ele sempre morrera de curiosidade para saber o gosto que tinha. Ele foi expulso aos chutes de lá, e acabou parando ao lado de uma caçamba de lixo, com sangue escorrendo do nariz nocauteado pelo segurança símio do estabelecimento. O cachorro, após alguns minutos de diagnóstico, colocou um cobertor sob a cabeça do amigo, que gemia de frio e de dor. E assim eles passaram a noite. No dia seguinte, o homem louco estava um pouco melhor, e um pouco mais louco. Mas nada que o afetasse realmente.
E assim foi por muito tempo. Um dia igual ao outro, só não se tornando rotineiro por causa das oscilações do senso do homem. E poderia continuar assim -- os olhares de reprovação das pessoas que só faziam invejar a vida livre de repetições e burocracias do louco, os chutes policialescos, a incerteza em relação à comida -- não fosse a irreparável mania do destino de debochar da vida. E daqueles que vivem.
Chegado o dia em que o destino riria por último, os vendedores não reclamaram. Os passantes, não julgaram. O cachorro não seguiu seu amigo -- e nem latiu. Não havia mais alguém de quem reclamar, alguém a quem julgar. Não havia ninguém para seguir. E o cachorro simplesmente se prostrou ao lado do cadáver do mendigo sujo. O mendigo que fazia barulho. O mendigo que falava com alguém falando sozinho. O mendigo que se jogou na frente de um ônibus para salvar seu amigo que não o entenderia. Morreu o mendigo. Ficou a sujeira.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Amor frágil




Sempre imaginei como seria estar do outro lado. Um dia, resolvi tentar.
Acordei pelo lado contrário da cama. Coloquei as roupas de verão no inverno. Fechei as janelas ao invés de abri-las. Limpei as lágrimas assim que escorreram e não as deixei secar com a brisa, como de costume. Parei de procurá-lo. Simplesmente, sem buscar explicações.
Nada mais me pertencia. Eu já não me pertencia. Não reconheci meu reflexo no espelho, e nem quis. Nesse dia, eu não era. Eu não sou.
"Eu senti a sua falta" ele disse. Eu não voltei para responder. As luzes que iluminavam a avenida noturna refletiam sobre mim. O andar do bêbado guiava minha vontade. Vontade de nada e tudo ao mesmo tempo. Deixei o tudo pra lá e fui-me em busca do nada. A placidez com a qual ele me olhava me fez parar. A grandeza do breu da noite equiparada à profundidade de meus olhos. Ele não estava lá. Mas tudo fazia parecer que estava. E o nada ofegava, cansado de entender. Eu não consegui. A noite ainda era minha, assim como os faróis, o vento frio, o absurdo do silêncio -- que ecoava do caos. Eu ainda me pertencia. As lágrimas surgiram, formando uma poça nos paralelepípedos da calçada. E eu achei meu reflexo. A pele alva, a mesma cor preenchendo olhos e fios de cabelo, a expressão cheia, o olhar exaurido. Tudo. Eu não consegui o nada. E ele me deixou, mesmo que nunca tivesse conseguido ficar. Fiquei esperando que o tudo voltasse. Que tudo voltasse. Não veio.
Engoli as certezas e me pus de volta em dúvidas. Ninguém veio. E eu parei de esperar.
"Acorde! Você consegue me ouvir? Por favor, diga que sim... Por favor!" ele implorava. Sabia que eu não escutaria, mas gostaria que eu fosse teimosa como em todas as outras vezes. Eu estava do outro lado. Se era bom ou ruim, eu não sabia. Eu não estava mais lá. Não estava mais no mesmo lugar em que ele estava. Eu estava sozinha comigo mesma, perdida no meu próprio mar de incertezas, boiando na água calma desse mar que não me molhava. Só me apagava.
Nesse dia, acordei do outro lado. Do lado de lá. No mesmo lado. E ele estava lá, do meu lado, esperando que eu acordasse. Ele me abraçou, e ficou tudo bem. E eu fiquei daquele lado, sem saber aonde estava. Mas eu estava lá, era isso o que importava.

As Ideias

DIA 3694

"Quanto você dá por este daqui? Parece bem esperto...". "Esperto, humpf, estes são os piores!". O menino movia a cabeça de um homem para outro, acompanhando a discussão com interesse. Os homens grandalhões e barbados mal o olhavam, muito preocupados com seus câmbios monetários. "Se manda garoto, nós não estamos interessados". O menino obedeceu -- irritado -- o mais rechonchudo dos homens, que lhe apontava seu enorme e vermelho dedo, que se assemelhava muito a uma salsicha. A barriga do garoto gemia com a fome. O menino -- pobre demais para ter um nome -- estava há alguns dias sem comer. O último sinal de comida que seu estômago vira fora um pedaço de maçã desprezada por um porco. Naquela altura, a ânsia por qualquer coisa que fosse comestível -- ou quase -- era tanta, que ele fora tomado por um egoísmo insuportável, que o obrigou a devorar a maçã semi-digerida pelo suíno sem nem pensar duas vezes. Era melhor que sua família não soubesse daquilo. Agora, no entanto, a culpa e a falta de perspectiva o incomodavam. E ele andava à procura de alguém que pudesse dar por ele mais do que ele realmente valia.
Ouvira certo dia que seus pensamentos poderiam lhe render algum dinheiro. E, ao que parece, não iria doer nada. Sendo assim, com o desejo latente de arranjar alguma forma de manter sua mãe, suas duas irmãs e seu pequeno irmão -- ainda um bebê -- vivos por mais algum tempo, o garoto com apenas 10 anos, mas um milhão de considerações, decidiu ir até o "mercado negro das ideias" e, quem sabe, sair de lá com alguma perspectiva para aqueles que ele tanto amava.
Ao chegar àquele centro pulsante, cheio homenzarrões que o assustavam, o fervor das negociações ao seu redor logo o enquadrou. Dois homens escandalosos, que cuspiam enquanto gritavam, discutiam se o lucro pela extração dos pensamentos daquele pequeno menino valeria a pena. "É contra a lei, você sabe disso!". "Eu sei, eu sei, Chevalier... Mas um intelecto bruto pode lhe render bons frutos. Pense bem, você será o único com uma mercadoria desse tipo...". "Isso se eu não for denunciado! Eu posso acabar atrás das grades!"."Tudo bem, minha oferta final: faça um preço e eu o vendo pra você! Vamos lá, quanto você me dá por este aqui? Ele parece bem esperto..." o garoto estava prestes a protestar, dizendo que ele não tinha dono e que o homem não tinha direito nenhum de o vender, quando foi interrompido pelo desdenho do segundo. "Esperto, humpf, estes são os piores!". O menino quase se ofendeu com a colocação a seu respeito, mas se lembrou que não tinha este direito. Ele saiu com os urros de insatisfação dos dois vendedores às suas costas, expulsando-o. Tinha voltado à estaca zero.
Decidira por tomar medidas drásticas. O garoto, que fugira de casa pensando em voltar para a sua família com alguma dignidade, percebeu que não iria voltar. E ,em alguns poucos segundos, como que por mágica, ele amadureceu toda uma vida inteira. Não, não era mágica. Era a realidade que o compelia a deixar para trás seus desejos de garoto e abandonar a vida como um velho ancião, que já tinha aprendido tudo o que podia aprender. Ele se dava conta de que era preciso que morresse para que sua família tivesse alguma chance enquanto corria pelo grande mercado, se perdendo no meio de centenas de homens gritando por dinheiro, enquanto só o que ele queria era uma vida. Uma outra vida.
"C-Com licença, eu gostaria de falar com seu mestre, senhor." -- o menino gaguejou perante o gigante que guardava uma enorme escada que levava até a cabine mais alta do comércio, duas longas tranças caíam da ponta de seu bigode loiro, alcançando seus joelhos. "Você quer falar com o Senhor Roux?! Você não é meio pequeno pra estar aqui, garotinho?" ele bradou; sua risada fazia tamborilar a água que formava poças no chão. "O que importa não é o tamanho, mas sim a grandeza da alma, não é mesmo?" o menino sorriu com a citação -- extraída de um rótulo de cereal jogado na terra, no qual ele reparara certa vez, no caminho para casa. No entanto, a astúcia do pequeno garoto impressionou o guarda-costas bigodudo, tal como o seu mestre, que ordenou "Faça o subir imediatamente". E assim foi feito. O garoto subiu, em rumo ao seu destino.
A escada muito íngreme, especialmente para uma criança -- a escada não fora feita para acomodar crianças, obviamente -- causava vertigens no pequeno garoto. Mas nada disso importava agora. Ele não sabia o que esperar quando chegasse lá em cima. Achou melhor não esperar por nada. "Olá, seja bem-vindo" disse uma voz rouca e horripilante, que revelou um sorriso tão horrendo quanto todas as pessoas daquele lugar. Quem sabe até pior. O garoto acenou com a cabeça, enquanto tentava se equilibrar na superfície acolchoada. Talvez não olhar para baixo fosse uma boa ideia... "Sente-se enquanto me conta porque achou que uma frase pronta criada por um monte de babacas engravatados para impressionar outros babacas que usam trapos e dão sua vida por alguma esperança ou alimento fosse me impressionar". Aquilo deixou o garoto embasbacado por um segundo, e o fez questionar se realmente conseguiria alguma coisa daquele homem tão sábio e tão mais ardiloso do que ele jamais seria. "Eu só pensei... era uma boa frase para impressionar alguém que pensa que o tamanho de seus músculos diz mais a seu respeito do que seu caráter. E ainda por cima aquele bigode ridículo..." -- ele não sabia como aquelas palavras tão seguras haviam saído de sua boca infantil. O grande senhor Roux pareceu apreciar. Ele concordou com a cabeça uma ou duas vezes antes de sorrir com o canto da boca, deixando um de seus caninos pontudos à mostra. "Muito bem. Quanto você quer?". "P-Pelo quê senhor?". "Pelo seu bem mais valioso, por aquilo que jamais pode ser comparado ou substituído, por aquilo que todos aqueles que não nascem sábios como você anseiam, aquilo à que todos atribuem preços, mesmo o seu valor sendo incomensurável. Suas ideias. Você deve ter um ótimo motivo para decidir vendê-las assim. Mas eu não quero saber, não precisa se explicar. Eu te dou quanto você quiser". "Senhor, eu não sei o que dizer... Muito obrigado. Na verdade, eu sei exatamente o que eu quero. Eu quero que você dê a última de minhas ideias para a minha família, senhor". "Eu já esperava por isso. Eu concordo, é um preço justo. Então agora feche os olhos e relaxe. Não vai doer nada." -- o comerciante ardiloso ordenou, enquanto aproximava um frasco com uma das extremidades pontiagudas do centro da testa do menino de apenas 10 anos e agora só um pensamento.

DIA 152
A mãe chorava enquanto sacudia o corpo inerte do filho em seu colo. Suas filhas mais velhas tentavam acalmar o bebê, que esperneava chamando pela mãe. "Meu filho, tão pequeno, tão bom... por que vocês tiraram o meu filho de mim? O que eu fiz de errado? Já não me basta ter que dar meu sangue para sustentar minhas crianças e agora vocês tiram uma delas de mim! Eu sei que eu não estava fazendo um bom trabalho, elas estavam passando fome, eu sei... Mas cada migalha de pão que eu comia escondida para ter fôlego para levantar todos os dias era para eles! Eu devia ter ficado sem comer e dado pra eles! Eu sinto muito! Me devolvam meu pequeno!" -- a mulher se engasgava com o choro, que levava seu ar embora. Policiais agarraram-na e a levaram para longe do cadáver do menino, ignorando seus protestos e suas tentativas de morder seus pulsos para tentar se libertar. E o menino pálido ficou lá, com um único furo no meio da testa, a expressão serena de quem não pensa mais. Morreu ancião.
O ardiloso comerciante Roux olhava satisfeito para a cena que causara, e admirava o pequeno bebê de apenas 6 meses, recém-completados, ao qual ele dera o maior presente que se poderia dar a alguém. O bebê chorava enquanto via sua mãe ser levada embora, suas irmãs tomadas pelo desespero de quem não sabe e nem tem o que fazer. Seu irmão, o velho sábio de apenas 10 anos que dera seus pensamentos para salvar sua família, continuava impassível no chão frio e ingrato do grande mercado.
Na mente do filho caçula daquela família desafortunada, ecoava um pensamento que salvaria suas vidas. O último pensamento de seu irmão mais velho. O presente do comerciante. Uma ideia, que mudaria para sempre o destino daquela família, que já não deveria mais lamentar a falta de perspectivas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Deixa eu voltar pra lá?...

Deixa eu ir pro mundo-da-hipocrisia? Por favor, só mais uma vez...
Antes eu não gostava da ideia de ficar brincando de faz de conta. Mas, por que não? É tão mais fácil dessa maneira...
Eu prometo que, dessa vez, eu irei aproveitar todas as vantagens daquele lugar. É calmo, claro e feliz. Já percebeu como todo mundo naquele lugar é feliz? Ou será que isso faz parte do faz de conta também? Seja como for, eu vou experimentar voltar e, dessa vez, sem preconceitos ou preocupações. Não vou querer mais saber o que as pessoas estão, realmente, pensando. Vou me contentar com aquilo que elas DIZEM que estão sentindo. E vou ser mais feliz assim.
Sempre invejei aquelas pessoas despreocupadas e alegres.Você já percebeu como elas estão sempre com um sorriso no rosto? Claro que, se você encará-las por muito tempo, vai perceber que por trás do sorriso tem sempre uma ruga de preocupação. Mas é só não encará-las. É melhor assim. E é por isso que eu vou voltar, para ser como aquelas pessoas. Você não quer vir comigo, não? Vamos, lá é lindo e ensolarado, eu te garanto. Não se pode nem comparar com o céu acinzentado daqui. E não se preocupe, você não estará perdendo nada. Aqui é tudo tão triste e pessimista...Bom, se você não quiser ir tudo bem.
Na verdade, é melhor você ficar. Assim, se eu conseguir voltar pra cá depois, você me ajuda. Quando meus olhos estiverem ofuscados pelo brilho de lá, você me dá um banho de realidade. Porque, sabe como é, não é bom ficar lá para sempre. Dizem que, se não voltarmos dentro de um tempo, perdemos para sempre a noção da realidade. E isso não é bom, porque é melhor que eu tenha um lugar pra onde fugir, caso eu me canse de lá. Caso eu me canse do céu sempre azul e ensolarado, das pessoas sempre perfeitas, sem falhas...
Às vezes é bom errar também.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A chave


“Acho que chegou a hora”. Com essas palavras ela lhe entregou uma pequena chave dourada, que levava pendurada em seu pescoço. Ela sentia medo. Tinha adiado aquele momento o máximo que pôde; não se sentia pronta. “Sinto muito, mas é extremamente necessário”, ele lhe falou, como se lesse seus pensamentos. Ela tentou sorrir. Realmente tentou. Não queria parecer azeda, mas não tinha como sequer fingir estar conformada com a situação. Mas ele, o homem que a encarava, tentando confortá-la com seu olhar, não tinha culpa de nada daquilo, não custava ser gentil. Ou será que ele teria alguma culpa? Ela não sabia ao certo. Mas não era hora de culpar a ninguém, a não ser ela mesma, talvez. “Pronta?”. Ela fez que sim com a cabeça. O homem não tirava os seus olhos dos dela, e ela encarava de volta. Ele abriu, gentilmente seu casaco, e aproximou a chave, que recebera, de seu peito. Ela não conseguia deixar de olhar para os seus olhos brilhantes e confortantes. Sentiu seu coração se acelerar e sua respiração ficar mais rápida e curta assim que a chave gelada a tocou. Ele girou a chave e menos de um segundo depois, ela já não sentia mais nada. Nem a chave, nem seus batimentos e respiração acelerados. Nem via mais os doces olhos do homem a observando. Estava mergulhada em uma névoa quente, doce...e sorria.

Ele sentia medo. Mas a hora havia chegado. Ele tentou impedir, fez tudo o que pôde. Mas não foi o suficiente. Ele estava ali agora. E ela já estava adormecendo quando belas imagens começaram a ser projetadas na parede à sua frente, vindas da chave, que ainda estava presa ao coração dela. “É só uma questão de segundos agora, ela vai ficar bem”. Ele repetia várias vezes essa mesma frase para si mesmo, quem sabe uma hora ele se conformaria. De repente, as imagens que passavam em turbilhões na parede começaram a ficar cada vez mais lentas, até passarem pausadamente, uma após a outra, como um pequeno filme. E ele viu. Ele viu tudo o que ela vira. Olhos castanhos encarando-a; um sorriso; um beijo; uma risada, a dela. Ele viu os cabelos dela balançando no vento, lembrando da sensação que o seu perfume causava nele. Viu duas mãos, segurando uma na outra, despreocupadas. Viu também um olhar tímido, um abraço demorado, e as mãos que não se soltavam. Ele tinha vontade de chorar, mas não podia. O que aconteceria se o vissem? Seria terrível.

Ela via tudo aquilo e sorria, inconscientemente. Mas conforme o seu turbilhão de memórias ia se esgotando, ela sentia uma crescente agonia, que a sufocava. Queria gritar para que aquilo parasse, mas não tinha voz. E ela viu os olhos dele a olhando, minutos atrás, em sua última lembrança. Tudo ficando cada vez mais turvo. Tentou sair da cadeira em que parecia estar presa, mas não conseguia mover um músculo sequer. Ela não tinha culpa de nada. Que culpa era aquela, afinal? Se é que pode se culpar alguém por se apaixonar. Ela imaginou a resposta dele àquela pergunta: “Mas pode-se culpar alguém por se apaixonar pela pessoa errada. Ela lhe diria que ele não era a pessoa errada, queria lhe dizer isso mais do que tudo neste momento. E esse desejo irreparável lhe fez brotar uma lágrima no olho esquerdo.

Ele viu a lágrima escorrendo no rosto dela e desejou que nada daquilo fosse verdade, que fosse apenas um pesadelo. Fechou os olhos esperando descobrir que estava sonhando, quando os abrisse. Não funcionou. E escorreram lágrimas dos seus olhos também. Ele começou a pensar naqueles olhares que haviam trocado antes, tão intensos, mas tão distantes; e no mar de palavras não ditas, em tudo aquilo que ele poderia ter feito...Agora não restava mais nada. Ela não se lembraria mais dele. Nem de nada do que viveram. Mas ele não esqueceria de nada. E aquela dor ficaria guardada em seu peito para sempre, ou até que algum superior descobrisse seu segredo e pegasse sua chave também; assim, seria feito com ele o que foi feito com ela. E a história deles dois estaria apagada eternamente. Ele não poderia deixar que isso acontecesse. Teria de viver com aquilo guardado só pra si, e não compartilhar com mais ninguém. O seu segredo era aquela garota. E, mais do que isso, era tudo o que ele sentia por ela. Por isso era preciso fazê-la esquecer de tudo o que eles viveram. Era perigoso demais. Ele abraçou seu corpo frio e inconsciente, e saiu de lá antes que ela acordasse. Ou pior: que alguém os visse juntos. Antes de sair pelo corredor, olhou para trás uma última vez.

Abriu a porta que levava ao lado de fora do lugar em que estivera por tanto tempo, e para onde não desejava mais voltar. E seguiu em frente, em busca de um caminho...