Carolina de Jesus

Carolina de Jesus

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

medo dos caminhos que hesitavam

A morena sempre teve medo dos trilhos do trem. Nunca dos trens. Dos trilhos hesitantes, dos caminhos que curvavam

parênteses sobre 2014

(Estranho.
Passou.
Durou uma vida que coube num instante e talvez quase um ano com pausas longas.
Mas não importa mais.
Só quero viver.
Por favor.)
Inteiramente.
Faltou só uma palavra.
Quando viu-se seca em lágrimas, escrita toda torta, de garganta contida, revirou-se no alento da lâmpada. Desligou, foi dormir. Amanhã eu vivo mais um pouco.

Respira

Fala pra Carolina que eu amo ela.
Que ela tem um cabelo bonito e uma esperança no olhar e nenhuma Guatemala vai trazer isso de volta. Só ela. Fala pra ela de todos os homens que nunca lhe Amaram. E de todas as mulheres que Amaram. E de todos os amigos que quiseram construir coisas, que lhe abraçaram quando ela chorou. De todos os shows que foi sozinha e os lugares que viu com os próprios olhos. e que podem me tirar de tudo e eu continuo aqui, crente que sou a menina que escrevia no chão da vó, que é boa com as crianças e que escreve pra desaprender o nó da garganta, que chora e escreve e vive. E desenha pra olhar as coisas com mais silêncio. Graças a deus. Que faz yoga e melhora a postura resolve as questões da hereditariedade. Que vai pra praia só pra Meditar. Que acredita na força e na adultez, na garra do irmão. Que acredita na força na adultez e na determinação da irmã. Que olha pra mãe com carinho, com zelo. Que olha pro pai com respeito e saudade. Que olha pra tia com felicidade pela felicidade dela. Que olha pra outra com admiração. Que não olha pra ninguém com dor no peito. Porque quando tem dor no peito não importa o resultado: só escreve e respira. Lê todas as coisas e gosta de olhar gravuras. Cuja melhor parte da vida é o agora. Mas que lembra com ternura o passado e o abraça, que não adoece de afetos porque eles são todos: eu. Tudo sou. Cada ausência cada nó sem fio cada falta de interpretação cada mal entendido cada vácuo e vazio no universo sou eu. Eu sou cada um desses silêncios que me botaram no mundo pra ver e não ouvir e não falar e não controlar e não sentir: sentir o nada todo junto. Ao mesmo tempo em cada palavra incerteza e montanha que eu vou subir. E tá tudo bem agora. Antes e depois do soluçar tem aquele minutinho de:
(Silêncio).

sábado, 30 de abril de 2016

graças a deus

Talvez eu só escreva mesmo em ausências.
Sentindo-me sólida, vasta de solitude.
Talvez deva-me mandar embora até a Patagônia onde os cigarros são frescos -- ei, tens algum cigarro?
Talvez eu deixe o embarrado barranco de homens e a pútrida carne da minha virilha que não se dá mais ao gosto e que desgosta de tudo quanto é cor. Prefiro os marrons mas na falta concentro-me em vermelhos.
Repúdio às Poéticas aos conventos e às castas. De todos os gêneros, depredo, vejo-me a s s e x u a d a.
O último pinguinho de gozo foi de medo naquele escuro às avessas, contente por ser assaltada.
Mecanicamente não nego o sistema -- baseado em contato e atrito --, mas subjetivamente eu recusaria o calor pelo hermético vazio que se instala -- sinto falta da melancolia.

Do vazio.


Aquele cafezinho como proeza da bondade me deu arrepios, sonhei que era assediada, arrastada, punida -- acordei liquefeita, reduzida a suspiros. Queria perigo eu tenho a decência.

oláaaaaaa? Me solte, alvoroço, fantasia, ódio, ódio, ódio, afago, angústia, tesão.
Silêncio e tédio -- me satisfaço facilmente, adio a trágica solidão para meados de agosto, graças a deus.

Você só me fala de silêncio.
É triste.
Me fala dos reflexos de outras pessoas em você.
É pena.